Luís Caeiro: "O deficit de liderança e a crise atual"
Em muitas organizações, as chefias ainda atuam com base na autoridade formal e centram-se na gestão dos processos, quando o sucesso depende cada vez mais de equipas comprometidas e autorresponsáveis. A linguagem da economia e da gestão tomaram conta do espaço público e invadiram a vida privada.
Acordamos com as previsões do Governo para a evolução da economia e adormecemos com a sua revisão pelos organismos europeus. Dezenas de indicadores percentuais mantêm-nos a par da evolução de projetos e objetivos cujo verdadeiro significado muitas vezes nos escapa. Num certo sentido, compreende-se que assim seja. A economia é um pilar essencial da sociedade e determina as várias dimensões do nosso bem-estar individual.
Uma gestão eficaz é a única forma de assegurar que as decisões são criadoras de valor. E, como se sabe, o que não pode ser medido não pode ser gerido. Por outro lado, numa sociedade complexa e em rápida mudança prevalece o imediatismo. Há pouca disponibilidade para se ir além das aparências e pensar a longo prazo.
Mas esta linguagem dominante é também uma cortina de fumo que tende a ocultar o essencial: a visão do futuro que se pretende construir, as grandes opções estratégicas em causa, a mobilização das vontades e o sistema de valores que apoia as tomadas de decisão. Têm faltado os atores capazes de protagonizar este papel. É aqui que radicam muitos problemas de fundo que estamos a enfrentar: um acentuado deficit de liderança.
O problema tem-se agravado e manifesta-se a vários níveis. O impulso dos "pais fundadores" para criar uma Europa pacífica, próspera, e solidária tem vindo a perder energia e estamos cada vez mais longe de construir um eleitorado europeu.
Os desentendimentos quanto às políticas comuns de defesa e de emigração, a falta de solidariedade no investimento e na distribuição da riqueza e, recentemente, as atribulações no planeamento e na logística da distribuição das vacinas, são prova de que faltam lideranças com projetos claros, agregadores e mobilizadores. Continuam a prevalecer os interesses dos eleitorados nacionais, enquanto a crise engrossa os extremismos nacionalistas.
O deficit de liderança também afeta as políticas internas. Os exemplos mais recentes entre nós foram a apresentação da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 e do Plano de Recuperação e Resiliência aberto para discussão pública.
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