José Miguel Sardica: "As sevícias do PREC"
O recente debate na CNN entre José Pacheco Pereira e André Ventura sobre os presos políticos pós e pré 25 de Abril não foi um confronto entre verdade e mentira em torno de factos, mas um frente-a-frente ideológico, de narrativas morais divergentes, destinado, naquela atrocitologia comparada, a que cada um pudesse marcar posições políticas perante os seus apaniguados. Resultado: Ventura fracassou no seu suposto academismo e Pacheco Pereira no seu episódico regresso à política ativa, porque cada um deles produziu “verdades” incompletas e ajustadas a gosto.
Que o Estado Novo foi uma ditadura repressiva ninguém de boa-fé pode negar. E nem o facto de não ter atingido as atrocidades dos totalitarismos fascistas o desculpabiliza. Em quase meio século, a ditadura torturou e matou umas centenas de opositores e prendeu milhares de pessoas. Mas a 25 de Abril de 1974, estavam nos seus cárceres em Portugal continental 128 presos políticos; no ultramar, o número era muito superior, entre presos políticos e prisioneiros de guerra (o que não é a mesma coisa). Abril libertou-os (e bem). Acontece que quando a revolução subsequente se radicalizou no PREC, entre finais de 1974 e finais de 1975, regressaram as prisões, agora de sinal contrário, havendo quem calcule em cinco mil o total de detidos políticos que passaram pelos cárceres revolucionários nesse curto período. A violência da revolução não pode branquear o Estado Novo; mas a violência do Estado Novo, mais conhecida dos livros, também não pode branquear a repressão exercida durante o PREC.
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