José Miguel Sardica: "As duas Espanhas"

Em 1914, José Ortega y Gasset cunhou uma imagem dicotómica adequada à leitura de toda a história da Espanha contemporânea - a da tensão e confronto entre a "España Vital" (do progressismo das massas democráticas), e a "España Oficial" (do tradicionalismo das elites conservadoras). Aplicando a leitura do filósofo madrileno, a Segunda República e a democracia (sobretudo se à esquerda), foram regimes da Espanha Vital, enquanto a monarquia de Afonso XIII e o franquismo foram regimes da Espanha Oficial. Ortega y Gasset morreu em 1955 e já não viveu a “transición” e a alternância entre a direita e a esquerda do regime constitucionalizado em 1978 - e não é certo em qual das Espanhas inscreveria os fenómenos dos nacionalismos autonómicos catalão, basco, galego ou andaluz, que nasceram à direita, como reação conservadora ao centralismo de Madrid, se acantonaram depois à esquerda, contra a castelhanização da Espanha levada a cabo por Franco, e prosperaram na democracia vigente no país vizinho em eterna barganha negocial com os sucessivos governos da Moncloa.

O recente desfecho do impasse governativo espanhol, com a reinvestidura de Pedro Sánchez na presidência, significa, porventura, a cristalização de outra dicotomia: a da Espanha indecente versus a Espanha decente. Os termos são fortes, mas é assim que qualifico a caixa de pandora que Sánchez agora abriu.

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