João César das Neves: "Três doenças da democracia"

A democracia está doente. O sinal mais evidente é os dois candidatos a primeiro-ministro andarem entretidos a acusarem-se mutuamente de extremismo, sem entender que é isso mesmo que faz deles próprios extremistas. Um moderado é-o, não apenas nas posições, mas sobretudo nas acusações. É trágico que os partidos principais, em vez de de lidarem com os problemas do país, se ocupem a publicitar de borla a extrema-direita e a extrema-esquerda, colando-as aos adversários moderados.

O truque de caricaturar o rival como um monstro é bem conhecido, mas isso pode tornar-se uma armadilha pois, além de falso, realmente vulgariza os horrores que denuncia. Seria conveniente que, de uma vez por todas, ficasse estabelecido que o PS não é o Bloco de Esquerda e o PSD não é o Chega.

É urgente que os dois grandes partidos do centro se respeitem mutuamente, para bem da democracia e do país. Devem lutar com ardor e empenho, mas sempre com elevação e dignidade. A retórica incendiária, além de beneficiar os extremos, põe em risco o sistema, que os exaltados abominam, mas os partidos institucionais têm o dever de defender.

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