Arménio Rego: "Os perigos da normalização do desvio"

Quando alguém se acostuma a violar regras, é provável que perca discernimento para compreender duas coisas: que está a violar regras e que, se for apanhado, pode ser punido. Quando uma quantidade crescente de pessoas ou entidades adota uma conduta pouco ética, ilegal ou perigosa, há riscos de que, com o decurso do tempo, essa conduta passe a ser considerada normal, tanto pelos perpetradores quanto pelos observadores. Os dois casos ilustram, de modo simples, a “normalização do desvio”: algo que é “desviante” passa a ser considerado “normal”. Em casos extremos, esta normalização pode conduzir à banalização da maldade – que as tragédias da Ucrânia e de Gaza bem representam. O fenómeno tem enormes implicações nas múltiplas dimensões da vida – social, política e empresarial.

Quando líderes propagadores de pós-verdades acabam eleitos ou são bem-sucedidos, há riscos sérios de que a malcriadez e a apologia de “factos alternativos” passem a ser consideradas normais e toleradas. Pode dar-se então início a uma espiral descendente e até decadente. O que tem ocorrido com o tema da segurança é ilustrativo.

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