Alfredo Teixeira: "Paixão – a ferida da história"
Na Semana Santa, a palavra “Paixão” regressa ao espaço público com o peso de uma longa sedimentação cultural: liturgia, música, pintura, procissões, silêncio. É uma palavra antiga, carregada de memória, mas também, inesperadamente, móvel. Ao contrário do que por vezes se supõe, a Paixão nunca foi uma narrativa fechada. Permanece inacabada. Atravessou séculos como um campo de reinterpretação contínua, no qual a tradição cristã se encontra com lugares decisivos da experiência humana, sob o signo da tensão e da reconfiguração.
As narrativas da Paixão e Morte de Jesus Cristo tornaram-se uma gramática cultural para pensar o sofrimento, a violência, a culpa, a inocência e a compaixão. Essa capacidade não deriva da fixidez, mas, precisamente, da sua abertura. Não se trata, portanto, de uma memória congelada. Cada época devolveu à Paixão as suas próprias perguntas: o que é a justiça quando condena o inocente? O que faz uma multidão tornar-se “turba” precipitada no linchamento coletivo? O que é a história contada a partir da ótica das vítimas? Como se desenha a fábrica política dos processos do “bode expiatório”?
Artigo completo disponível na Renascença.
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