Uma Universidade Mais Perfeita
Discurso de encerramento das celebrações do 50.º aniversário da UCP
Sua Excelência, Sr. Presidente da República, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa,
Eminência Reverendíssima sr. D. Manuel Clemente, Magno Chanceler da UCP,
Sr. Núncio Apostólico,
Sr. Arcebispo de Suava e srs. Bispos,
Srs. Embaixadores,
Dear State Senator Michael Rodrigues and Representative Alan Silvia,
Senhores Reitores e Vice-Reitores,
Sra. Administradora e srs. Presidentes de Centros Regionais da UCP,
Srs. Diretores de unidades académicas,
Digníssimos membros do Conselho Superior,
Sra. Presidente da Sociedade Científica,
Antigos Reitores da UCP,
Caros professores, estudantes e colaboradores,
Distintos convidados,
Minhas senhoras, meus senhores,
Encerramos as celebrações do 50.º aniversário da Universidade Católica Portuguesa, fundada a 13 de outubro de 1967, com a conferência de Sua Excelência, o sr. Presidente da República, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a quem agradeço reconhecida a enorme honra que nos dá com a sua presença. Ao privilégio sentido por todos os portugueses de ter como primeira figura do Estado um líder atento às pessoas, perspicaz na ação e de uma rara inteligência, digo-o sem rodeios, alia-se para a Católica o orgulho de o ter tido como membro distinto do seu corpo docente na Faculdade de Ciências Humanas, primeiro, e depois na Faculdade de Direito, e hoje, o valor enorme de contar com a intervenção de um académico notável a encerrar um ciclo de conferências que assinala um ano de celebrações, mas também uma visão sobre a sociedade, e sobre o papel da universidade no futuro que queremos construir. O tema que escolhemos para estas Grandes Conferências, ‘Futuros Globais’, assinala a consciência de um momento de crise, mas também de enorme oportunidade. Durante muitos séculos, pensar e olhar o futuro foi uma prática idealista e essencialmente otimista. Projetava-se ‘o melhor dos mundos’, olhava-se o progresso tecnológico como agente de uma ciência que intentava melhorar a condição humana. Ao longo do século XX, a perceção eufórica do progresso foi sendo limitada pela consciência da abissal capacidade para a produção do infortúnio. No século XXI, o historiador israelita Yuval Noah Harari avisa no seu último livro 21 Lições para o Século XXI, sobre os perigos da inteligência artificial, que residem não na autonomização de uma inteligência superior, mas no perigo totalitário da sua utilização/manipulação por uma clique de seres humanos que se sentem superiores a todos os outros. A quarta revolução tecnológica coloca sérias questões ao futuro do trabalho e bem assim da vita activa como definidora da matriz do humano, ao mesmo tempo que nos encontramos perante a realidade de uma crise de recursos e de uma crescente e evidente exaustão do planeta. O futuro é portanto diverso, heterogéneo, perigoso e esplendoroso. Podemos falar afinal com maior coerência de ‘futuros’, que estão situados em realidades globais culturalmente distintas, mas necessariamente imbricadas. A abrir as conferências, o Magno Chanceler da Universidade Católica, sr. D. Manuel Clemente, falou-nos sobre os desafios da ciência e salientou em particular a necessária e urgente tarefa de pensar concretamente a prática da interdisciplinaridade, não como teoria, mas como ação. O desafio da complexidade não se resolve a partir da disciplinaridade restrita, exige pensamento ético, visão do mundo global, diálogo. De diálogo também nos falou a teóloga Maria Clara Bingemer, da PUC Rio, defendendo que o futuro do Cristianismo se negoceia no diálogo com aquilo que lhe é externo e com o radicalmente distinto. Radical foi a proposta que nos trouxe um dos maiores cientistas de inteligência Artificial da contemporaneidade, o Prof. Hiroshi Ishiguro, da Univ. Osaka, criador do mais perfeito androide – a robot Erica – e que promoveu a visão de um mundo, onde, e citando-o, ‘os nossos filhos serão máquinas’.
Preparar o futuro e pensá-lo é a matéria da universidade, cuja tarefa parece impossível, dado laborar sempre com instrumentos do presente para preparar competências para o futuro. Esta dimensão controversa da universidade torna-se mais aguda num momento de disrupção tecnológica como o que vivemos, quando parece que tudo está em mudança. A tecnologia altera as práticas, as formas de interação social, o funcionamento das instituições, a construção do conhecimento, da realidade, e a própria auto-perceção dos indivíduos. As universidades são instituições implicadas no progresso tecnológico, na preparação das pessoas, na construção de sociedades que queremos abertas, inclusivas, democráticas, tecnicamente capazes e social e emocionalmente estáveis. A matéria das universidades, e por isso não há melhor trabalho no mundo, é pensar, modelar e refletir criticamente sobre o passado que herdamos, o presente que vivemos e o futuro que preparamos.
Nascida como projeto da Igreja apoiado na sociedade civil, a UCP tem vindo, ao longo de cinco décadas, a criar futuro para o país. Laboramos para incutir nos graduados competências que lhes permitam desenvolver carreiras sólidas e de sucesso num horizonte a devir, com um espírito forte de cidadania, intervindo com marca própria na modelação de uma sociedade que desejamos robusta, democrática e solidária. O papel da universidade, como disse um dos mais carismáticos Presidentes da Universidade de Chicago, nos anos 70, Edward Levi, não é ser neutra face aos problemas da sociedade, mas abordá-los com a única força que lhe é exclusiva, a da gestão do conhecimento com uma perspetiva própria. A missão da Universidade Católica Portuguesa não é neutra, procura servir o país e proporcionar soluções para os problemas complexos da sociedade com base no universalismo dialógico do humanismo cristão, orientado para a criação de valor com valores. Somos conservadores, porque guardamos a memória do passado, somos revolucionários, porque o nosso genoma é o da irrequieta mudança e da inovação. Queremos saber mais, diferente, melhor. Recordo as palavras sábias do senhor Presidente da República na Cimeira de Reitores em Salamanca, em maio último, quando citando um dos mais notáveis reitores de Salamanca, Miguel de Unamuno, instou as universidades a ambicionar, porque, como disse Unamuno: “Quem não sente a ânsia de ser mais, não chegará a ser nada.”
Temos a ânsia de ser sempre mais, mas sem descurar a modéstia que vem da assunção de que por muito que queiramos, o conhecimento é inevitavelmente provisório, falível. Com o apoio da Fundação Amélia de Mello, que muito já fez e continua a fazer pela UCP, lançámos hoje a primeira História da Universidade Católica Portuguesa, coordenado por Manuel Braga da Cruz, um exercício sobre 50 anos de história narrado pelos protagonistas, que afinal faz a história da incompletude que a universidade é e sempre será, querendo ser sempre mais. O lastro da reflexão sobre os processos e os atores, sobre o percurso que nos fez chegar aqui foi ainda complementado com o Estudo Católica Impacto, elaborado pelo Centro de Sondagens e Opinião da UCP, e coordenado por André Azevedo Alves, que quantifica o contributo notável e ímpar diria – sem falsa modéstia – da Católica para a sociedade. O valor económico acumulado de 18 mil milhões de Euros é notável mas não representa tudo o que fazemos, afinal a nossa história é a de criar valor... com valores.
E estes valores chegam-nos também através de um cultivo próximo da arte e da cultura. Uma das iniciativas centrais do programa Reitoral, a iniciativa Campus Cultura atinge hoje um dos objetivos iniciais, com a inauguração da Galeria Fundação Amélia de Mello, um projeto do Arq. João Appleton criado para colocar a arte e a cultura no coração da atividade da universidade, e promover o contacto com diversas expressões artísticas não como suplementar, mas como nuclear a qualquer pensamento científico sólido e prática educacional cosmopolita. O meu agradecimento muito particular à Fundação Amélia de Mello e ao Dr. Vasco de Mello por acreditar nesta visão da universidade como estúdio de transformação e pelo apoio à ambição da Católica.
Avaliar o passado é um passo para construir futuro e trilhar caminhos novos, alguns radicalmente distintos e necessariamente permeados por uma lógica de alianças transnacionais. O futuro das universidades é portanto global ou não é. E nada disto é absolutamente novo. Johann Wolfgang von Goethe dizia nas suas Máximas, no século XIX, no alvor dos nacionalismos, que “Não há arte patriótica nem ciência patriótica. As duas, tal como tudo o que é bom e elevado, pertencem ao mundo inteiro e não podem progredir a não ser pela livre ação recíproca de todos os contemporâneos.” Iremos por isso amanhã em conjunto com outras 7 universidades católicas de todo o mundo e que se destacam pela excelência do seu ensino, investigação e serviço à comunidade, assinar uma Aliança Estratégica Global que tem como objetivo potenciar a colaboração, agregar e partilhar boas práticas e efetivamente desenvolver um modelo de interação científica mais competitivo, potenciador da inovação e promovendo o impacto à escala global.
Sr. Presidente, quem não sente a ânsia de ser mais, não chegará a ser nada. Em 50 anos, a Universidade Católica Portuguesa nasceu como sonho, materializou-se em quatro centros do país Braga, Lisboa, Porto e Viseu, alargou-se a Macau, construiu-se como grande centro do conhecimento, transformou o país, capacitando-o com formações inovadoras, formou os atores da mudança do Portugal moderno e contribuiu para o seu crescimento, como grande projeto não estatal, criado pela Igreja e com o apoio inquebrantável da sociedade civil. O encargo de fazer futuro, em colaboração e à escala global, tem novos desafios, já abundantemente divulgados: uma nova Faculdade de Medicina, novos centros de saber, um novo campus de inovação. Todavia, a nossa missão prioritária é Portugal, e por isso é com justa antecipação que ouviremos e aprenderemos com a sua grande lição sobre o Futuro de Portugal.
Isabel Capeloa Gil
Reitora
11-10-2018