Reitora da Católica defende “adoção ética” da inteligência artificial no ensino superior
Como podem as universidades católicas permanecer fiéis à sua missão humanista e ética na era dos algoritmos e da inteligência artificial? É este o ponto de partida do artigo de opinião escrito pela reitora da Católica, Isabel Capeloa Gil, agora publicado no “L’Osservatore Romano”, no qual analisa os desafios e oportunidades trazidos pela Inteligência Artificial ao ensino superior.
Intitulado “Entre o oportunismo e o catastrofismo, a terceira via da adoção ética”, no seu texto, Isabel Capeloa Gil, também presidente da Strategic Alliance of Catholic Research Universities (SACRU, ou Aliança Estratégica das Universidades Católicas de Investigação, em português), sustenta que “a crise atual caracteriza-se por duas narrativas dominantes. A primeira é a narrativa da oportunidade; a segunda, a da catástrofe. Entre ambas, existe uma terceira via: a adoção ética.”
Assim, por um lado, na sua ótica, a inteligência artificial oferece uma “oportunidade técnica sem precedentes”, que se materializa em maior eficácia organizacional, equipas livres para ações mais significativas e orientadas por valores, processamento rápido de dados e aceleração da investigação, inovação e desenvolvimento económico. “Para os estudantes, a inteligência artificial alarga o acesso ao conhecimento, possibilita a aprendizagem personalizada, melhora a comunicação e fomenta novas formas de colaboração. Esta narrativa promissora domina a nossa época. No entanto, acarreta riscos”, alerta Isabel Capeloa Gil.
A dependência de redes sociais e a menor capacidade de atenção, de concentração e de memória são, na sua opinião, efeitos que podem decorrer da utilização de Inteligência Artificial. “Na batalha emergente entre os bots e o cérebro, o resultado, com demasiada frequência, não é o melhoramento cognitivo, mas sim a complacência intelectual e a preguiça”, contrapõe.
Isabel Capeloa Gil aponta ainda “uma pressão crescente do mercado por parte das empresas tecnológicas” que as universidades enfrentam, e nota que o “discurso institucional tende muitas vezes para o determinismo tecnológico, deixando as universidades impotentes perante a mudança.”
É neste contexto que surge uma terceira hipótese. “As universidades não são passivas. Muitos estão a trabalhar em prol da adoção ética: salvaguardando a educação centrada no ser humano, limitando a excessiva dependência do mercado e protegendo contra a erosão da identidade institucional”, realça a reitora da Católica e presidente da SACRU.
“Num mundo que tende para a uniformidade, as universidades católicas devem manter-se plenamente empenhadas, livres e autónomas, preservando a sua identidade distintiva. Enraizadas na defesa radical da dignidade humana, são chamadas a promover um progresso tecnologicamente responsável e eticamente fundamentado. São guardiãs de uma ecologia integral do conhecimento, exercendo a inteligência no seu sentido mais pleno, acolhendo a tecnologia quando serve a dignidade humana e limitando-a quando a ameaça”, conclui no seu artigo no “L’Osservatore Romano”.