Eduardo Sorte: “Gosto de olhar para a minha obra como um retrato”
Eduardo Sorte é músico e estudante da Licenciatura em Som e Imagem da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa. Destaca a Católica como determinante na sua formação, proporcionando experiências académicas e criativas que lhe permitem explorar diferentes linguagens artísticas e desenvolver novos projetos. Paralelamente, frequenta o Conservatório de Música do Porto e tem acumulado experiências artísticas diversas. Nesta entrevista, partilha o seu percurso enquanto artista, a importância da formação, o papel da música na sua vida e os planos musicais para 2026.
Como é que a música surgiu na sua vida?
A música foi algo que surgiu gradualmente na minha vida, até ocupar o lugar fundamental que tem hoje. Foi a prática da composição que me levou a relacionar-me mais profundamente com a música. Foi quando me apercebi da sensação de alívio e libertação que a composição me trazia, que entendi que a música era bem mais importante na minha vida. Quando comecei a fazer orquestração das minhas canções, por volta dos 12 anos, rapidamente surgiu o interesse de explorar outros instrumentos, compreender as suas linguagens para explorar nos meus arranjos.
Como é que se foi construindo enquanto artista?
Acredito que a construção de um artista não se separa da construção da sua própria identidade, enquanto indivíduo. A música que toco, que interpreto, que estudo e que componho foi sempre um reflexo do que sou e do que procuro interiormente. Concordo inteiramente com Quincy Jones, quando diz: “A tua música nunca será mais ou menos, do que aquilo que tu és, enquanto ser humano”.
Neste sentido, o tempo que dedico à leitura, à escuta de entrevistas a pessoas que admiro, à exposição da cultura, ao constante questionamento daquilo a que chamo “certezas” são processos que me enriquecem enquanto ser humano e artista.
De que forma é que a formação é fundamental nesse caminho?
Os primeiros passos, numa academia como a Valentim de Carvalho, foram enriquecedores e determinantes. Ao nível performativo, pela aprendizagem para colaborar em equipas numerosas, e pela integração de espetáculos heterogéneos, fora da minha zona de conforto, destacaria a Escola do Rock de Paredes de Coura, onde realizei residências artísticas por alguns anos. No mundo académico, a Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e a licenciatura em Som e Imagem tiveram um impacto imenso, levando-me ao contacto com pessoas, obras e caminhos inspiradores, que apontam a necessidade de prosseguir estudos para continuar a crescer a todos estes níveis.
“É um curso que nos oferece uma paisagem rica sobre diferentes formas de arte, que nos leva a encontrar novos caminhos e possibilidades artísticas.”
O que mais o tem marcado na licenciatura?
A pluralidade de projetos que envolvem diferentes técnicas, meios artísticos e processos de pensamento tem sido extremamente enriquecedora. As cadeiras teóricas como História da Arte, Pensamento Contemporâneo, Teoria dos Media, Iconografia e Semiótica tiveram um impacto enorme em mim e na minha conceção do mundo e da arte.
É um curso que nos oferece uma paisagem rica sobre diferentes formas de arte, fundamentos teóricos e históricos que nelas existem, e uma desformatação implícita que nos leva a encontrar novos caminhos e possibilidades artísticas, fundindo tudo o que aprendemos.
Há algum projeto desenvolvido no âmbito da licenciatura que o tenha marcado de forma especial?
É difícil escolher um dos vários projetos em que estive envolvido. Um dos trabalhos que mais me marcaram no âmbito da licenciatura foi o Projeto 4, desenvolvido em grupo, com o acompanhamento dos professores Marcelo Reis e Lorena Alves. Efetivamente, foi um projeto que envolveu várias esferas diferentes, incluindo música, programação, construção, escolha do material e montagem da instalação. Um projeto que foi um desafio a vários níveis, mas que se tornou numa grande aprendizagem e experiência. Foi exibido publicamente na sala MOCAP da Universidade Católica, onde recebemos pessoas de dentro e de fora da Universidade.
“Procuro explorar em mim o que é universal à experiência humana. Sentimentos de paixão, saudade, alegria, solidão, esperança, questões existenciais... “
Paralelamente, estuda no Conservatório de Música do Porto e tem tido várias experiências performativas. Como gere estas diferentes exigências e ritmos?
Gere-se com paixão, é preciso gostar muito do que se faz e cada projeto ser mais aliciante que trabalhoso. Gere-se através da organização do tempo e da definição clara das prioridades. Por vezes, há momentos em que é complicado conciliar todas as tarefas, o que me obriga a avançar no trabalho com a maior antecedência possível. Contudo, já não me vejo de outra forma.
Como descrevia a sua obra? Que temas procura explorar e com que linguagens ou estilos mais se identifica?
Gosto de olhar para a minha obra como um retrato. Procuro explorar em mim o que é universal à experiência humana. Sentimentos de paixão, saudade, alegria, solidão, esperança, questões existenciais...
Em termos de estilos e linguagem, foi sempre difícil para mim escolher apenas uma estética, uma identidade, uma só coisa. Sou muitas e demasiadas coisas para mostrar apenas ser um só, e penso: não seremos todos assim? Mutáveis, plurais e amórficos. Dentro do portfólio que tenho, os géneros musicais variam de música eletrónica, para rock alternativo, para jazz contemporâneo, para folk/country, canções de autor, música pop… Todos estes universos musicais apaixonam-me.
Nas letras, a poesia de Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa e os seus heterónimos, Florbela Espanca, Daniel Faria, entre outros, são autores que me ajudaram a encontrar formas disruptivas de usar a linguagem, para captar algo maior. O uso de uma linguagem poética, metafórica e alegórica é um estilo que gosto de explorar, pois permite uma margem de interpretação maior para o ouvinte mergulhar em si mesmo, naquilo que deveras sente e pensa, quando ouve a canção.
Que artistas mais o inspiram?
David Bowie, Fiona Apple, Radiohead, Jon Brion, os Beatles, Maria João Pires, Jorge Palma, entre muitos outros, são pessoas que me inspiraram imenso com os seus percursos e identidades. Penso que as nossas influências são importantes, até para descobrirmos mais sobre nós, sobre o que gostamos e sobre o que verdadeiramente nos inspira.
Acredita que a música pode ter um papel transformador na sociedade?
Não diretamente. Acho que a mudança estará sempre na mão de quem age, de quem se une a favor de uma causa concreta, de quem se move diretamente num corpo social e o altera. Nesta linha de pensamento, a música em si, isolada de qualquer contexto, não acho que tenha força suficiente para alterar estruturas sociais, enraizadas na cultura. No entanto, somos movidos por emoção, pela sensibilização a favor de uma causa, pela empatia e, nisto, acredito que a música e a arte podem agir.
A música altera o nosso estado de espírito, a poesia também informa, a imagem desvia o nosso foco para onde deve ser dirigido. Acredito que a música pode plantar sementes dentro de nós, que um dia poderão levar-nos a agir. Mas a verdadeira mudança, para mim, não se encontra na arte – encontra-se, sim, no indivíduo.
“É muito importante sabermos bem o que queremos para não nos trairmos e agirmos com assertividade e confiança”
Que projetos vão marcar o seu ano de 2026?
Neste momento, tenho a sorte de vários projetos estarem a ocorrer em simultâneo. A promoção de 2 singles, o Ser ou Não Ser e o Chuva do Meu Olhar, e do meu EP, está em curso desde finais de 2025 até hoje. Estou responsável pela orquestração dos arranjos do Liceu Francês Internacional do Porto, que serão apresentados no concerto solidário das escolas internacionais da Casa da Música, já em março. Estou encarregue da composição da banda sonora de 3 projetos de alunos finalistas do curso de Som e Imagem. Datas de concertos e gravações estão agendadas para o arranque do ano. Academicamente falando, o projeto final da licenciatura em Som e Imagem e a Prova de Aptidão Artística do Conservatório de Música estão a avançar, e serão para apresentar em maio-junho de 2026.
Que conselho deixaria a outros estudantes que queiram conciliar a formação académica com uma prática artística ativa?
Primeiro, aconselharia a experimentarem muito e colaborarem com outros artistas. No entanto, também acredito que é fundamental existir um foco, uma direção, uma estratégia bem definida que oriente essa exposição a novas experiências. Um outro conselho que daria é definirem bem as prioridades entre a vida académica, profissional e pessoal. É muito importante sabermos bem o que queremos para não nos trairmos e agirmos com assertividade e confiança, principalmente, quando o resultado não é o que esperávamos ou desejávamos, o que acontece algumas vezes, à medida que se vai vivendo e aprendendo. É importante, também, fazermos aquilo que verdadeiramente gostamos e que nos move. Por fim, a formação é um pilar importante, ter motivação suficiente para suportar adversidades, confiar no valor que temos e acreditar nos nossos objetivos e sonhos. Partilho um conselho que já ouvi algumas vezes nesta área: “se vens para aqui, tens de gostar muito disto!”.
Pessoas em Destaque é uma rubrica de entrevistas da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto.
