“A bolsa da Católica era a possibilidade de continuar, de sobreviver, de não deixar tudo desmoronar”, conta a iraniana Mahoor Kaffashian

“Será que posso realmente estudar aqui?” A pergunta é de Mahoor Kaffashian e surgiu em junho de 2022, quando visitou pela primeira vez a clínica dentária do campus de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

Nascida no Irão, mudou-se para a Ucrânia onde começou por estudar na área da aviação. Mas, passado um ano, decidiu seguir outros voos. “Mudei para a medicina dentária porque me parecia o equilíbrio perfeito: ajudar as pessoas, trabalhar com ciência e arte, ao mesmo tempo que construía a minha independência”, recorda, acrescentando que “a odontologia oferecia uma mistura de serviço, criatividade e autossuficiência”.

Entretanto, saiu da Ucrânia e fez várias tentativas para continuar os estudos noutros países: Itália, Polónia, Alemanha, Áustria, Bélgica e Espanha. Porém, obteve apenas “respostas vagas”. “A Católica foi uma das poucas universidades que me deu algo concreto em que me apoiar”, conta.

Com efeito, em setembro de 2022, veio a resposta à sua pergunta. E foi um ‘sim’. Graças a uma bolsa de estudo da Católica para refugiados, pode retomar o curso de medicina dentária em Viseu.

Hoje, Mahoor Kaffashian recorda que a adaptação a um novo sistema de ensino, a uma nova língua e a novas pessoas foi “um desafio”. “É claro que me senti sortuda por poder continuar o meu caminho para me tornar dentista, mas não foi nada simples”, descreve. “Houve momentos difíceis, financeiros, académicos e emocionais, mas, apesar de tudo, agarrei-me a uma frase: «Sobreviveste a uma guerra... isto é realmente mais difícil do que isso?”, continua a estudante. E lembra a ajuda que teve de professores, de colegas de turma e de pessoas de Viseu. “Fizeram tudo o que podiam para me fazer sentir em casa”, elogia.

Por isso, Mahoor também soma “momentos de felicidade”, como “terminar um tratamento, ver um paciente sorrir novamente ou ouvir um professor dizer «Muito bem»”. “A clínica em si guarda muitas das minhas memórias”, assegura, apontando situações muito concretas: “Celebrei os meus momentos de maior orgulho, quando um paciente me disse que tinha começado um relacionamento depois de termos corrigido os seus dentes, ou quando consegui algo que pensava não ser capaz”.

Em jeito de balanço, a aluna iraniana frisa que “a Católica nunca foi «apenas um diploma», foi uma mistura de desafios e apoio que moldou tudo”. E sublinha a importância da bolsa de estudos que “não era apenas financeira; era a possibilidade de continuar, de sobreviver, de não deixar tudo desmoronar. Sem ela, nada deste percurso teria sido possível”.

“Muitas vezes, perguntei a mim mesma: «Será que vale mesmo a pena?» Mas a 9 de julho de 2025, quando defendi a minha tese, soube a resposta. Vale mesmo a pena”, resume Mahoor, que teve nota máxima do júri e já publicou um artigo na revista Prosthesis, dois resumos – um nacional e outro internacional –, e três posters.

“Dediquei a minha pesquisa e tese às mulheres iranianas, com a esperança de que elas possam prosperar livremente, às Mulheres, à Vida, à Liberdade e também a todos os refugiados, que lutam pelo que deveria ser seu direito, mas que não tiveram a sorte de tê-lo no seu próprio país”, reflete a recém-graduada.

“Para mim, ser dentista significa ter a capacidade não só de construir a minha própria vida, mas também de dar oportunidades a pessoas que precisam apenas de um pouco mais de sorte ou apoio. Além disso, adoro a confiança que as pessoas ganham quando voltam a sorrir; é inestimável ver alguém amar-se mais depois do tratamento [dentário]”, explica Mahoor.

Assumindo que prefere ter objetivos a sonhos, revela que pretende retribuir o amor, a bondade e o apoio que recebeu. “Às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é de um pequeno empurrão, uma pequena ajuda para continuar. Quero ser essa pequena ajuda para outra pessoa, a sorte de que precisa para acreditar no seu caminho”.

Para o futuro, Mahoor deixa um desejo: “um mundo mais seguro, com menos ditadores, mais árvores, mulheres orgulhosas do que podem fazer, crianças que crescem mais sábias e o racismo existindo apenas como um mito assustador do passado”.

Este programa surge no âmbito do esforço nacional de acolhimento e integração dos refugiados e dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pelas Nações Unidas. "A Iniciativa de Apoio a Estudantes Refugiados foi reconhecida como uma Boa Prática pelo Global Compact on Refugees."

Categorias: Refugiados

Seg, 02/02/2026