Língua Gestual Portuguesa: “Ver e viver o mundo através da comunicação visual”

Isabel Morais, de 51 anos, dedicou praticamente metade da sua vida à aprendizagem, investigação e ensino da Língua Gestual Portuguesa (LGP), cujo Dia Nacional se celebra a 15 de novembro.

Isabel nasceu surda e, ao frequentar um curso-piloto sobre Educação Bilingue e Surdez, descobriu “um profundo interesse pela linguística da LGP”. Quis aprofundar conhecimentos e fez formação adicional na Associação Portuguesa de Surdos. Mais tarde, já como professora de LGP no Agrupamento de Escolas da Quinta de Marrocos, na zona de Benfica, voltou a sentir necessidade de consolidar a sua especialização académica, o que a levou a matricular-se na Licenciatura em Língua Gestual Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa.

Desde então, conta Isabel, a ligação à Católica “tem sido uma das mais marcantes” do seu percurso académico e profissional. “O acolhimento foi caloroso e respeitador, e desde o início senti que a LGP era valorizada como uma verdadeira língua de ensino, investigação e cidadania”, recorda. E acrescenta: “Enquanto aluna, vivi experiências de aprendizagem muito enriquecedoras, com professores e colegas que partilhavam o mesmo entusiasmo pela linguística, pela educação bilingue e pela valorização da comunidade surda. A formação foi exigente, mas profundamente gratificante, e permitiu-me desenvolver competências teóricas e práticas que hoje aplico no ensino e na investigação”.

Durante a licenciatura, Isabel participou em diversos projetos sobre LGP, enquanto investigadora e palestrante. Atualmente, está parcialmente ligada à elaboração do primeiro Dicionário Contemporâneo de Língua Gestual Portuguesa. Desenvolvido pela Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da Católica e o Instituto Superior Técnico, consiste num dicionário bilingue em LGP – Português para ser usado nas salas de aulas através de uma app.

“A descoberta da LGP transformou profundamente o meu percurso profissional e pessoal, abrindo portas para a investigação, o ensino e a promoção de uma educação mais inclusiva”, resume a alumna, que soma já 25 anos a trabalhar nesta área.

Desde 2022 que é presidente da Associação Profissional de Lecionação de LGP, que representa os professores desta língua. E tanto para quem queira ensinar, como para aqueles que querem aprender, deixa desafios e conselhos.

“Ser professora de LGP é ser um modelo linguístico nativo, culturalmente consciente e, acima de tudo, alguém com muita paciência. Cada aula é uma

oportunidade de construir pontes entre mundos visuais e orais, e cada pergunta é uma porta para o diálogo e a compreensão”, descreve. E defende que, mesmo havendo mais oferta formativa e apesar de a LGP começar a ser reconhecida como área de estudo relevante, ainda há caminho a percorrer para uma verdadeira integração desta língua nos currículos escolares. Por exemplo, em termos dos conhecimentos dos professores ou dos materiais didáticos. “A LGP continua a ser vista como algo complementar, em vez de uma língua de ensino com estatuto próprio”, alerta Isabel, vincando que “não é apenas uma ferramenta de comunicação, é um instrumento de cidadania”. “Quando a LGP é usada como língua de ensino, os alunos surdos podem compreender, participar e desenvolver-se academicamente com autonomia. Isso contribui para o seu sucesso escolar, autoestima e integração social”, reforça a professora.

Já para quem deseja aprender LGP, seja surdo ou ouvinte, “o mais importante é começar com respeito pela língua e pela comunidade que a utiliza. A LGP não é apenas um conjunto de gestos; é uma língua completa, com gramática própria, cultura e identidade”, adverte. O primeiro passo é procurar formação com professores surdos porque “aprender com pessoas que usam a LGP como língua materna permite uma aprendizagem mais autêntica, rica e culturalmente contextualizada”. Também é essencial ter contacto com a comunidade surda, optar por cursos certificados e evitar recorrer apenas a vídeos ou aplicações, que são bons complementos, mas não permitem uma verdadeira imersão linguística e cultural, além de praticar regularmente com pessoas fluentes.

“Aprender LGP exige paciência, humildade e curiosidade. É um processo que vai muito além da memorização de gestos — envolve compreender uma forma de ver e viver o mundo através da comunicação visual”, remata.

Em Portugal, há cerca de 30 mil pessoas surdas, mas a comunidade falante de LGP será bem mais ampla, se se considerar familiares, educadores e outros profissionais.

A Língua Gestual não é universal e cada país tem o seu próprio vocabulário e gramática. A Portuguesa surgiu no século XIX, a pedido do Rei D. João VI, e é reconhecida pela Constituição desde 1997.

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