#9 A “Evolução” das Organizações em Tempos de Pandemia

Há dias partilharam comigo nas redes sociais a seguinte piada:

Quem acelerou a transformação digital na sua empresa?

a) A equipa de IT

b) O CEO

c) O CTO

d) O Covid 19

e) A equipa Agile

Para além de sorrir, poderemos também refletir um pouco sobre a implementação das novas tecnologias nas organizações  nomeadamente do que se refere ao Teletrabalho.

Os processos de mudança organizacional são extremamente difíceis de implementar devido a uma grande diversidade de fatores, sendo um dos mais estudados a resistência das pessoas à mudança. Mudar, mesmo que seja para melhor, implica ir para uma zona desconhecida, perder o controlo de algo que dominamos, sendo esta perda de controlo geradora de ansiedade. Havendo muitas variações inter-individuais pode-se, contudo, identificar uma resistência generalizada à mudança organizacional que se acentua com o aumento da idade. Quando falamos de mudanças que implicam a introdução de novas tecnologias, a resistência é ainda maior devido ao sentimento de infoexclusão de alguns trabalhadores ou mesmo de líderes.

Há já pelo menos duas décadas que CEO's, GRH, CTO's de algumas organizações, cujo setor de actividade o permite, ponderam a introdução do teletrabalho, pelo menos um a dois dias por semana. Noutras situações, são os próprios colaboradores que propõem realizar algumas atividades em teletrabalho e são os próprios responsáveis pela empresa ou diretores que resistem a que o colaborador trabalhe em casa, exigindo a sua presença física no local de trabalho no horário estipulado.

Quanto aos benefícios do teletrabalho podemos especificar em termos de  benefícios relativos à organização, benefícios relativos ao colaborador e benefícios relativos à sociedade. No que se refere aos benefícios relativos às organizações, permitindo diminuir a densidade de pessoas na organização, libertando espaço, a empresa beneficia em termos de menores custos em instalações fixas (gabinetes, espaços partilhados). São também esperados maiores níveis de produtividade, bem como menores níveis de absentismo. A organização disporia ainda de colaboradores que de outra forma não poderiam trabalhar nos locais tradicionais.

Do ponto de vista do colaborador, este poderia beneficiar de economia de tempo nas deslocações para o trabalho, de maior flexibilidade nas gestão das relações trabalho-família, maior flexibilidade de horários, o que lhe proporciona uma maior qualidade de vida. Para determinadas funções, como por exemplo, as que requerem longos períodos de concentração sem interrupções, como é o caso da escrita, o processo é altamente vantajoso.

A sociedade também beneficia com o teletrabalho porque dele resulta, por exemplo, uma redução do tráfego automóvel e dos voos, e como consequência menores níveis de poluição, menos gastos em combustíveis e maior qualidade ambiental.

Aparentemente estamos perante uma situação de ganho-ganho em que todas as partes - organizações, colaboradores e sociedade - beneficiam com esta situação. Mas a resistência continua, pois a implementação de novas tecnologias levanta sempre, entre muitas outras, a questão de não ter as competências necessárias para lidar com as novas tecnologias, o medo da extinção de postos de trabalho e o receio da perda de controlo.

Numa abordagem centrada nas pessoas, a tónica é posta na necessidade de desenvolver as tecnologias de modo a complementarem as capacidades humanas, ao invés de as substituírem ou dificultarem a sua expressão.

Para que esta implementação das tecnologias seja bem sucedida é necessário contar com colaboradores com elevadas competências, flexíveis, empenhados e preparados para a inovação.

Em situação de pandemia, é claro que as circunstâncias são bastante diferentes. Vive-se uma situação ameaçadora da saúde publica e uma intensa crise económica, política e social, o que aumenta muito os níveis de ansiedade das pessoas. A título de exemplo, com o encerramento das escolas, os colaboradores que têm os filhos em casa e que estão em teletrabalho têm um acréscimo de trabalho e de dispersão, bem como de stress e provavelmente um decréscimo dos níveis de produtividade.

Muitos trabalhadores encontram-se presentemente em teletrabalho ao qual se tiveram que adaptar, em muitos casos, de um dia para o outro. E adaptaram-se! Certamente uns com maior, outros com menor facilidade. Ah! Mas não é a mesma coisa! Não há nada como o presencial! Não, não é a mesma coisa. Por exemplo, os teletrabalhadores ficam afastados do espírito de equipa e ficam afastados dos colegas presentes no escritório, o professor não consegue estabelecer o mesmo nível de contacto, o mesmo estilo de relacionamento com os alunos, a mesma eloquência nas aulas. Concordo, não é a mesma coisa! Mas permite-nos funcionar adequadamente em determinadas situações podendo mesmo revelar-se altamente vantajoso. É exatamente o que estamos a viver nestes tempos de isolamento. As tecnologias foram uma das formas de não estarmos tão isolados, de podermos partilhar afetos, músicas, inquietações. De alguns setores da economia poderem funcionar, de alguns serviços continuarem a ser prestados. No caso específico das universidades permitiu-nos dar aulas aos nossos alunos e a eles assistirem às nossas aulas. Não é a mesma coisa! Não, não é e já vamos ficando um pouco cansados de nos vermos no Zoom, pois exige muito maior atenção e concentração. Ao não termos pistas de contexto utilizamos menos o processamento heurístico da informação e temos que utilizar mais o processamento sistemático sobrecarregando o trabalho cognitivo do nosso cérebro. Também aumentam as saudades da sala de aula e do contacto presencial. Sem dúvida, a Universidade sem alunos não faz o menor sentido, a imagem do Campus vazio é desoladora e relembra-nos que os alunos são o sentido da nossa existência como Professores! Contudo, as aulas online e o apoio a toda atividade académica com recurso às tecnologias foi de grande utilidade, foi mesmo, em alguns casos, uma experiência de superação e desenvolvimento, uma experiência muito gratificante (de acordo com o relato de muitos colegas com quem tenho falado). Temos alunos mais assíduos e pontuais e em alguns casos foi notória uma maior valorização das aulas, quer da parte de professores, quer da parte dos alunos permitindo para além da aprendizagem de conteúdos atenuar os efeitos do isolamento.

Em situações de mudança há sempre algo que ganhamos e algo que perdemos, cabe-nos a nós, pôr o foco nos aspetos positivos, no que melhorou com a mudança e não ficar preso áquilo que se perdeu e que ficou no passado. Focar, aumentar a nitidez, tomar consciência do que de bom nos trouxe a mudança. Trata-se de colocar o foco no que de positivo nos está a trazer o presente e que nos trará o futuro e desfocamo-nos um pouco do que perdemos. Um pouco, o suficiente para não nos tornarmos irrealistas e cairmos na patetice alegre que só nos levaria, entre outras coisas, - a perdas de produtividade e diminuição da qualidade do trabalho -, a ignorar que é preciso envolvermo-nos na resolução de problemas que irão surgir.

Mas como conseguir esta tomada de consciência e foco nos aspetos positivos se o nosso cérebro, desde os primórdios, está preparado para detetar o perigo, aquilo que poderá correr mal e é ameaçador? Será que podemos educar o nosso cérebro? Sim, podemos tentar contrariar esta tendência natural através de uma tomada de consciência, ajudada por alguns exercícios específicos que se formos empenhados e persistentes poderão trazer-nos resultados bem animadores. Deixo-vos com alguns exemplos de intervenções positivas, propostas por Martin Seligman, “pai” da Psicologia positiva, e que poderão utilizar em tempos de pandemia.

  1. Exercício de três bênçãos. Pretende contrariar a tendência do nosso cérebro para se focar no que pode correr mal e reeducar a atenção para o positivo. Consiste em todas as  noites, antes de ir para a cama, escrever três coisas boas, que correram bem e dar graças. Essas coisas podem ser pequenas e comuns em importância. Pense porque é que essa coisa boa aconteceu.
  2. Visita da gratidão. Visita da gratidão é um exercício psicológico em que devemos identificar alguém que teve um impacto significativo na nossa vida, expressar a nossa  gratidão numa carta e entregar a carta pessoalmente (quando for possível).
  3. Identifique os seus pontos fortes (forças positivas, virtudes) e use-os de uma nova maneira.

 

Leonor Almeida,

Psicóloga Organizacional, Docente FCH-Católica,

Coordenadora da Pós-graduação em Comunicação e Psicologia Positiva e da Formação Avançada em Inteligência Emocional

Categories: Faculdade de Ciências Humanas

Sexta, 08/05/2020